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Rei Carlos III pressionado a fazer pedido formal de desculpas por papel da Coroa no comércio de escravos

Rei Carlos III pressionado a fazer pedido formal de desculpas por papel da Coroa no comércio de escravos

Vários deputados, especialistas e ativistas pediram ao rei Carlos III que apresente um pedido de desculpas formal pelo tráfico de escravos, depois de ter sido lançado um livro que detalha como a Coroa lucrou com o comércio de africanos escravizados durante séculos.

Mariana Ribeiro Soares - RTP /
Jane Barlow - Pool via Reuters

Após o lançamento, esta semana, do livro “O Silêncio da Coroa”, vários deputados, especialistas e ativistas pediram ao Rei Carlos III que apresente um pedido formal de desculpas pela escravatura transatlântica.

O livro detalha como os monarcas, da Rainha Isabel I a Jorge IV, usaram o comércio de escravos para aumentar as receitas da Coroa e defender o Império Britânico.

O rei já expressou "pesar pessoal" pelo sofrimento causado e falou sobre o seu compromisso em "encontrar maneiras criativas de corrigir as desigualdades que persistem". No entanto, a coroa britânica nunca emitiu um pedido formal de desculpas.


Bell Ribeiro-Addy, deputada trabalhista e presidente do grupo parlamentar multipartidário para as reparações africanas, afirmou que o “pesar pessoal” “não se coaduna com um dos maiores crimes contra a humanidade”.

“Não se trata de indivíduos, mas da monarquia enquanto instituição”, acrescentou. “O que é necessário não é simplesmente um pedido de desculpas em nome da Coroa, mas o reconhecimento desta história e ações para lidar com o seu legado duradouro de racismo e desigualdade globais”, disse, citada por The Guardian.

“Um pedido de desculpas poderia ser a base para a conversa honesta e a transformação que precisamos ter como país em relação a essa questão, num mundo que muda rapidamente”, disse.

O Runnymede Trust, um think tank britânico sobre igualdade racial e direitos civis, também exige um pedido de desculpas da Coroa, afirmando que seria "um primeiro passo simbólico bem-vindo", mas que precisa ser acompanhado de ações concretas.

“Um pedido de desculpas da Coroa só deve ser oferecido se for acompanhado de uma promessa governamental de se empenhar no trabalho sistémico necessário para entender como os legados da escravatura influenciaram as nossas infraestruturas económicas e financeiras e de se comprometer genuinamente com a sua reforma e transformação”, defende.

Especialistas independentes que trabalham com a ONU também afirmam que um pedido de desculpas já deveria ter sido feito há muito tempo.

O livro “O Silêncio da Coroa”, da historiadora Brooke Newman, oferece um olhar inédito sobre os laços históricos da monarquia britânica com a escravatura.

Newman disse que começou a trabalhar no livro há dez anos, após encontrar "correspondências secretas" que detalhavam os receios de George IV de uma revolta semelhante à Revolução Haitiana na Jamaica. O livro revela que, em 1807, quando a Grã-Bretanha aboliu o comércio de escravos no seu império, a Coroa britânica era a maior compradora de escravos do mundo, adquirindo 13 mil homens para o exército por 900 mil libras.

“Uma das revelações mais importantes é que a Coroa possuía milhares de pessoas escravizadas no Caribe até 1831. Mesmo quando Jorge IV supervisionava a repressão do comércio transatlântico de escravos pela Marinha Real, ele ainda lucrava, tecnicamente, com o trabalho e a venda de pessoas escravizadas. O Governo tem conhecimento disso e está preocupado com a imagem que a situação passa”, disse Newman, citada pelo Guardian.
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